O 5º andar

Maio 5, 2008 at 4:09 pm (Momento Lúdico, Vida Real) (, , , )

15h33m de uma tarde fria em São Paulo.

Uma pausa para o café.

Fico na janela abusando do privilégio de estar no 7º andar; é interessante ver as pessoas por cima, parecem formigas gigantes.

         Vejo uma senhora lavando os pratos do outro lado, ela deve estar no 5º andar do outro prédio. Ela está compenetrada, pensando talvez que deveria comprar um detergente neutro para não causar irritação às suas mãos, ou talvez esteja pensando em como seu marido é insuportável, assistindo TV no volume máximo; ou melhor, talvez ela esteja refletindo sobre o último capítulo da novela, ou está triste por não falar mais com Deus. Desisto, vai saber o que passa na cabeça de um ser humano lavando louça.

         O café está bom.

         Uma rajada de vento frio entra pela janela. A sensação é boa: beber algo quente sentindo um vento gelado. Dá arrepio.

         Continuo olhando para a senhora do 5º andar. Percebo que ela parou de lavar a louça, mas continua na pia. Talvez esteja muito irritada com o volume alto da TV e decidiu contar até cinco, ou quem sabe até cem.

         Noto que ela está com uma faca na mão, sim, uma faca daquelas gigantes. Com um vestido branco e uma faca na mão ela fica com um aspecto assombroso, parecendo uma louca.

         O café está quase acabando e começo a sentir o gosto do açúcar que acumulou no fundo do copo. Café melado é horrível.

         Olho novamente para a janela da senhora do edifício vizinho e fico pensando quanto deve ser o condomínio de um apartamento na Av. Angélica. Vou fundo fazendo algumas contas, somando e subtraindo do meu próprio salário e chego a conclusão que deve ser bem caro, pelo menos pra mim. Analiso o prédio, e imagino que são dois apartamentos por andar e apesar de ser uma construção antiga está bem conservado. Viro os olhos despretensiosamente para a senhora do 5º andar e, ops! ela não está mais na pia da cozinha.

         As vezes dá vontade de ter uma luneta, ou melhor, um binóculo. Ficar espionando as pessoas é legal. Mas isso tem que ser natural. As pessoas espionadas nunca devem saber que estão sendo observadas, porque é muito interessante ver um humano em seu estado mais natural. Você vê cada coisa. Senhores pelados tentando chupar o próprio pau, moças lindas arrotando como um ogro; mas o mais normal é ver gente lambendo o prato e cutucando o nariz.

         Olho para o celular e vejo que são 15h37m. Quatro minutos as vezes passam bem rápido.

         Dou a última espiada e a cozinha continua vazia. Olho para a sala e… a senhora de branco está na sala com a faca na mão olhando para o marido que dorme tranquilamente no sofá da sala. Não entendo o porque mas lembro de uma música de McCartney. É hora de voltar pra estação de trabalho, colocar o fone no ouvido e trabalhar ao som do “band on the run”.

        

         Boa tarde…

        

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